sábado, 27 de fevereiro de 2010

Banho




Estava escrito e terminado, mas ligado à mim como as coisas que ainda não concluí. Não é mais meu, libertei-me, agora fica aqui como ponto final.
Água gelada, fria como a vida que leva junto ao marido e os dois filhos. Teve a mão a faca e cortou o queijo, arrependeu-se amargamente. Empurrou aos cantos da alma os sofrimentos e passou forte o sabonete onde é limpo por definição. Apoiou-se no azulejo quebrado, o único que a compreende por completo entre tantos outros perfeitos e azuis, arrogantes em sua simplicidade. Nunca tentara alcançar a simplicidade, sempre tentou o importuno, o difícil, não conseguiu jamais. Fechou a água e se sentou no chão para tornar o momento um pouco mais demorado. Sentiu o piso frio gelar a superfície da pele, amou-se onde a pele tocou o solo. Jogou ao chão sua dor, seu corpo. Cabe-se dentro de si, não se põe para fora como a personagem do livro que lera na tarde anterior, - esperava os filhos saírem do colégio quando leu a última página, a personagem virou eternidade nas frases mal arrumadas pelo autor - e ela boba, não era frase, nem livro e nem eternidade, no máximo era banheiro. Tinha ao corpo a pequena partícula que forma tudo e não conseguia sentir-se nada.

Passos fortes sobre o assoalho procuravam por ela. Teve medo, ergueu-se rápido. Caso perguntassem sobre o vão momento em que ficará em banho sem o barulho de água responderia que penteava o cabelo, caso perguntassem se o cabelo fora bem penteado diria alegre que sim. Não chamaram por ela, não a quiseram. Os passos ignoraram sua mediocridade. Era ótima frente ao fogão, sobre a máquina de lavar, e mais ainda sobre a tábua de passar. Não sendo necessária comida, roupa limpa ou passada ela não se fazia necessária. Riu, fechou a água e voltou a se sentar.
Teve medo de morrer, não de morrer, de não continuar após morta. Disseram-na quando criança que basta dez anos após sua morte para que seu nome e sua reputação vão para junto do resto do corpo embaixo da terra. Não quer seu nome junto de si sob a terra. O medo orgânico de deixar os filhos para alimento do mundo não existe, nunca existiu para ela, saíram do ventre não da alma. Não eram dela, nem de ninguém. O marido bobo que nunca descobrira sua verdadeira face tão menos importava. Queria algo mais, levantou. Ter medo da morte assegura que a vida deste jeito então é boa. Não é, e não faz sentido.
A irmã gorda que acha ter certeza de tudo, e que está sempre certa, impõe uma aceitação que não quer mais ter. Distanciou-se da irmã por alguns meses e mesmo longe seus atos eram para ela, seriam aceitos? Seriam? Não importa o arroz queimado, o que importa é se entenderão que o arroz queimou por um descuido humano, passível de ser cometido até por sua irmã. Achava-a inteligente, irritante, irônica, superior, mas quando por perto demonstrava amor fraternal. Seria esse seu propósito, viver à sombra da irmã que não faz idéia de seus atos.
Trocou a temperatura do chuveiro com leveza majestosa, a água expelida agora será quente. Tentativa falha de se sentir mais aconchegada esqueceu de abrir a torneira e se perdeu em mais alguns pensamentos. Terá ela comprado presunto suficiente para o jantar? O tempo que resta para as seis da tarde acompanhará o preparo do assado? Como será o oposto do que sinto? Inevitavelmente deixou-se cair novamente no chão. Desta vez sem tato caiu meio deitada meio ajoelhada sobre o próprio corpo. Amargou-se por não ter o livro da tarde anterior ali perto, gostaria de lê-lo, fugir da realidade, sumir entre as páginas. Não o tendo tentou inventar uma estória qualquer, fazendo de si a personagem principal. O único roteiro a que conseguiu adaptar seu personagem era o da própria história, chata, sem aventura nem animação. Seus sonhos quais eram? Poderia ter realizado algum em pensamento, trocado alguns detalhes ou arrumado os finais. Saber quais são é difícil. Achou então que precisa de uma psicóloga, um psicanalista, um analista, ou algo assim. Desistiu em seguida por medo de descobrirem o tempo que desperdiçou no banho para decidir que precisava disto. Levantou torta com as pernas dormentes, segurou-se firme na prateleira para conseguir ficar plena de pé, ficou. Saiu do box meio tonta, triste e já seca.

Lucas Moratelli . Blog Ideas of a Madman

Paulo Braccini
enfim, é o que tem pra hoje...

21 comentários:

  1. Lindo esse texto, ao mesmo tempo que ácido e agridoce.... sem palavras para descrever.

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  2. E nunca devemos tentar a simplicidade mesmo, pois é inata. Ótimo fnds e enquanto existirem amigos como vc, não se preocupe que não desistirei. Xero.

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  3. Ser dona de casa é isso.Esmagador.
    É algo entre psicólogo,padre, professor,empregada doméstica e puta.
    Uma delíca se você tem a força dos power rangers e do godzila reunidas,e também o par correto.
    Se não, vira inferno não remunerado.
    Muito bom isso, vou lá futricar, Obrigada querido.

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  4. Lindo texto.O problema é que muitas pessoas descobrem que só passaram pela vida, tarde demais. Não viveu seus sonhos, não se valorizou, não foi valorizada, sofreu calada para não peder aquele(a)que julgou ser seu amor. Aí so resta mesmo tomar um banho e ver se ele lava a alma.
    Bejux

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  5. Obrigado pela presença e coments meus amigos Fumaça, AD, Pimenta e Wander ... nunca devemos desistir de nossos sonhos e projetos, em função de nada e de ninguém ... a vida é única e passa como uma névoa ... o amargor do não ter vivido é algo muito caro a ser pago ...

    bjux

    ;-)

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  6. por isso que fico pensando... de que vale tantas preocupações com o futuro? Uma aposentadoria? Uma aplicação futura? Sei lá. Esse futuro já é agora, amanhã é sempre uma incógnita... sou bem chegado na realização imediata. Fico felicíssimo com as pequenas conquistas! acho até que são elas que nos impulsionam.

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  7. EFS ... o viver tem q ser pleno a cada instante dentro da contextualidade de cada instante . o amanhã é incerto ...

    bjux

    ;-)

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  8. nossa é lindo! opostos! gostei bastante da ideia

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  9. Concordo 100% contigo, Paulo. Desistir dos nossos sonhos, jamais! Eles podem até demorar pra acontecer, mas sempre valem a pena. Ou pelo menos é melhor do que envelhecer e ficar pensando no que teria feito diferente e como a vida teria sido.

    Olha Paulão(uui), vou dizer procê o mesmo que eu disse pro Wanderley: o bom gosto do casal é incontestável. Sempre que passo por aqui tem algo legal pra ser lido um pensamento a ser vivido. Parabéns por isso. '-'

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  10. obrigado Cookie e CPessoa ... a sensibilidade de vcs captaram bem esta maravilha do Lucas ...

    bjux

    ;-)

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  11. Legal a análie do Wanderley, é isso.
    Eu completo com o seguinte: "Quando passam pela vida e depois de muito tarde é que se tocam que já eram, aí é que bate a rebordosa". Ou ficam vagando em pensamentos perdidos e inalcansáveis ou tentam recuperar no mínimo que resta, aí enlouquecem".

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  12. Obrigado meu querido "meio maluco" ... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    bjux

    ;-)

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  13. Excelente texto.
    Com sabias e reflexivas palavras.
    Realmente um banho.
    Abraço!

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  14. Nossa, que surpresa!
    E você acredita que eu comecei a ler e só depois de duas frases percebi que conhecia o texto. :)
    Lê-lo de novo deu vontade de mudar algumas partes, sempre dá...

    _

    Assim como a personagem do texto eu acho que minhas "crias" depois que saem de mim não me pertencem mais, e uma análise minha seria completamente desnecessária diante das maravilhosas percepções que já foram expostas. Fico feliz quando provoca, indaga, instiga etc.


    Muito obrigado por isso Paulo, significa muito.

    Abraço.

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  15. Se eu fosse autorebelde jé tinha dado um final em meu relacionamento, mas, como todo bom baiano com cabeça grande e vivo (baiano burro nasce mortoa) ditado popular, coloquei minhas idéias no lugar fazendo uma autoreflexão e achei o sentido do continuar.
    Blz. parabéns.

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  16. Querido Lucas ... viu como outras tribos apreciaram seu talento e sua sensibilidade? até o pai da criança faz leituras e re-leituras de sua própria obra qdo posto em cheque em momentos outros e em circunstâncias outras aos do ato de criação ...

    obrigado querido por nos brindar com esta beleza e com sua presença por aqui ...

    bjux

    ;-)

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  17. Ops... Lucidreira ... como todo bom baiano sempre carismático ... obrigado pela presença e pelo registro ...

    bjux

    ;-)

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  18. Meus olhos estiveram com ela. Eu a vi. Eu estou pensando nela agora. Eu gostaria de poder dizer algo que lhe tirasse dessa opressão a que ela se moldou. Estou incomodado.
    Achei mágico. Viajei com as palavras. Demorei-me uma eternidade neste banho.

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  19. Obrigado Garoto do Blog e Jefh ... a sensibilidade do Lucas é contagiante mesmo ...

    bjux

    ;-)

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  20. me da uma força ai!
    entra no meu blog e publique para o maior numero de pessoas que conseguir vlw brigadao

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  21. Obrigado pela presença Sr. Dominik

    bjux

    ;-)

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então! obrigado pela visita e apareça mais, sempre teremos emoções para partilhar.

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