quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Anotações Insensatas


Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby.
Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa posta.
Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, depois acendeu o cigarro, reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura.
Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim.
Porque havia o sufocamento daquela espécie de patético simulacro de fantasia matrimonial provisória, a dificuldade de manter um clima feito linha esticada, segura para não arrebentar de súbito, precipitando o equilibrista no vazio mortal. Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor, e de repente não tinha gosto?
De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Espera, vamos conversar, sugeriu sem muito empenho. Tarde demais, porta fechada. Sozinho enfim, podia remexer em discos e livros para decidir sem nenhuma preocupação de harmonia-com-o-gosto-alheio que sempre preferira um Morrison a Manuel Bandeira. Sid Vicious a Puccini. A mosca a Uma janela para o amor, sempre uma vodca a um copo de leite: metal drástico. Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite — a Fome maiúscula. Não a mesa posta e farta, com pratos e panelas a serem lavados na pia cheia de graxa — mas um hambúrguer qualquer para você que escrevo. Mas os escritores são muito cruéis, você me ama pelo que me mata com coca-cola no boteco da esquina, e a vida acontecendo em volta, escrota e nua.
Não muito confuso, assim confrontado com sua explícita incapacidade de lidar com. A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com. Um instante antes de bater outra, colocar uma velha Billie Holiday e sentar na máquina para escrever, ainda pensou: gosto tanto de você, baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo — e não entende nada.

Caio Fernando Abreu . Anotações Insensatas


Paulo Braccini
enfim! é o que tem pra hoje...

20 comentários:

  1. muito obrigado por postar Caio Fernando Abreu.

    um dia o Foxx disse q achava q eu escrevia como ele, desde então eu estava com uma vontade imensa de ler coisas dele.

    não q eu escreva igual, até parece, mas eu sinto igual.

    isso me soa mais importante agora.

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  2. Quando eu li isso a primeira vez, senti um arrepio que há muito não sentia. Era como ouvir uma linda música pela primeria vez. Uma grande sensação de contentamento.

    bj, beibe!

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  3. Querido amigo, lindo texto. Beijocas

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  4. Estou causando com esse post, ADOREI, me identifiquei, me senti na pele dele sobre o sofrimento do escritor, sobre a dor que ainda não compreendo, se é causada por mim mesmo ou pelo outro... espero um dia entender, se é só limitação pessoal ou desdenha afetiva, sobre o paraíso perdido que se transforma o amor para mim, porque isso acontece? porque no começo sempre era melhor? será que o sofrimento não compensa uma relação, o melhor seria ficar sozinho e serelepe... nao sei, nao sei... Mas tenho inspirações para escrever, grande merda de ganho... Bjo!

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  5. Paulo,

    Eu sou suspeita pra falar de Caio!

    Porque existiram duas Silvias:
    Antes de Caio, depois de Caio.
    Assim como Lispector (Que pra mim é o Caio de saias).
    Quem leu os livros de Caio e Clarice, hoje vamos falar de Caio, até por esse texto que deixa a gente sem palavras, nunca mais é a mesma pessoa.
    Ler Caio, me fez uma outra Silvia.
    Caio me ensinou a vomitar minhas neuroses, a explodir o que me machucava, e mandar se "danar" as coisas que eu achava que tinha que engolir pra ser inserida num contexto.
    Muitas pessoas acham as obras de Caio depressivas (vejo isso na comunidade dele).
    Engano total.
    Caio era apenas um cara que não se dobrava as regras do mundo, e que colocava sua solidão, seus momentos turvos de uma forma que paria a alma. Suas dores.
    Quem ve as entrevistas de Caio em alguns documentários, videos, ve o quanto ele era doce. Leve.

    Enfins, falar de Caio é emocionar...

    Lindo texto!

    Meu abraço, lotado de carinho!!!

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  6. Está tudo ligado!
    Esta vida é um novelo em que nos enleamos desde o nascimento até depois da morte; pois os outros ficam com a memória.
    Excelente texto! Excelente escolha de post! Parabéns!

    Quanto ao "Direitos"... sinto-me lisonjeado! É óbvio que estás completamente autorizado a fazer uso do texto. E, obrigado pela preferência.

    Abraço... (e bjux, rsrs)

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  7. Justamente por esses dias em que eu vejo que a minha dificuldade de abrir espaço na minha vida para quem eu amo pode colocar tudo a perder, um texto desses é maldade, Paulo...

    oO

    Beijo, fiquei sensibilizada com isso.

    ℓυηα

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  8. Pois é, o que tem de gente que acha que o outro é sua propriedade, um doce não é nada.
    E a vida é mais do que sim e não. Pode ser talvez também.

    Beijos

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  9. Antes de saber de quem era no final do post, eu já advinhava a autoria. Porque é bonito e seco e me vem lágrimas aos olhos.´Só pode ser Caio ou Clarice e é claro só poderia ser você a postar, seu imenso bom gosto. Bj

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  10. Fiquei apaixonado pela verborragia de Caio desde que li Morangos Mofados, as palavras jorram como se fossem uma grande hemorragia. Tenho um livro q vou indicar em breve no meu blog chamado "Desamores". Abraços queridão.

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  11. mara esse texto, perfeito Caio fernando Abreu ,bjz

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  12. Eu li pouco sobre o Caio e a maioria dos textos comecei a ler em alguns blogs. Mas, vejo que ele tinha uma sabedoria grandiosa e digna de aplausos.

    abraços

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  13. Esse texto de Caio Fernando eu não conhecia, mas é meio impossível ler algo dele que não nos toque, eu particularmente, o adoro.
    Beijo enorme no teu ♥ meu querido Paulo.

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  14. Tem os que empurram, e os que remexem, mesmo sem comer...
    Qual preferirias, se fosses o dôce?
    bjo

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  15. É...sei que dizer não, refletindo muito sobre o texto. Acho que Caio acabou de escrever sobre mim...Oo
    (Caio tem dessas coisas não é? Tão direto!)

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então! obrigado pela visita e apareça mais, sempre teremos emoções para partilhar.

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