“A aposta esta perdida. Querelle curva-se sobre a mesa. Desabotoa o cinto, as calças, mas não chega a abaixá-las. Apenas abre as pernas e debruça-se mais sobre a mesa. O negro vem por trás. Primeiro, com a mão direita, abaixa as calças do marinheiro até os pés. Com a esquerda, desabotoa as próprias calças. O negro lambe o dedo indicador e começa a introduzi-lo entre as nádegas de Querelle. Seu dedo desaparece na carne branca. Não há nenhuma resistência. O negro retira o dedo e, com um único movimento firme, introduz seu membro dentro de Querelle. Querelle não se move. Com as duas mãos, o negro escancara as nádegas do outro para entrar mais, e melhor. Quando entrou completamente, sobe as mãos pelo peito de Querelle até alcançar os mamilos duros perdidos entre os pêlos. É quando o negro tem a primeira suspeita. Move-se mais, entrando dentro de Querelle. Morde sua nuca, enfia a língua em seus ouvidos. Querelle continua imóvel. O negro desce as mãos dos mamilos do outro pelos pêlos da barriga, até seu sexo. Quando a palma de sua mão segura o sexo rijo de Querelle, ele tem certeza absoluta. O marinheiro não perdeu a aposta. Ao contrário, é o único vencedor. É tarde demais para o negro recuar dessa derrota enviesada. Ao longe uma voz rouca de mulher cantarola sempre: “Each man kills the things he loves”. O negro entra mais fundo, ao mesmo tempo em que sente a umidade do prazer de Querelle começando a molhar a palma de sua mão. Lá-rá-rá-lá-rá-rá-rá: o negro geme e goza dentro de Querelle. Querelle não geme nem se move. Apenas goza também, ao mesmo tempo, abundantemente na palma branca da mão do negro. A aposta está ganha.”
(trecho do conto “Bem longe de Marienbad” de Caio Fernando Abreu)
Então me tocarás naquilo que te dou mas é no gozo íntimo do dar e receber que nos tocamos se é fato que te faço único quando uma só é a coisa que naquele instante te traduz —aquela a qual eu olho e digo: é essa — a coisa será sempre qualquer coisa pois único já eras eu te dou desde o momento da intenção até o instante em que recebes e dado permaneço enquanto fruis o que te oferto a coisa, logo vês, só vivifica o dar e o ter pega este poema. é teu. e o que te ocorre? já sentias que era teu desde o início.
Sendo exatamente doze e trinta, de quanto tempo necessito num poema para dizer (a coisa tem que ser sucinta) "amo você", assim, rápido como num telefonema?
mas que não pareça frase feita, tipo teorema, e sem que a pressa me desminta, sabe como? (pense num problema!) ah, já sei, vou espalhar a tinta
da caneta no papel (ih... doze e quarenta!) e torcer que essa pintura me sirva de garganta. é isso. e vou ficar de orelha bem atenta.
mas... o que vem lá? algo à folha se apresenta: além de "amo você", outra coisa se lhe imanta: "eu também". maravilha!. bem, vou lá. (doze e cinquenta!)
Nada me sacia. Só a boca macia, aveludada, de uma imagem diáfana e carnal. Cultuo a beleza e o cheiro e a forma. A Lua uiva. Mas são os cães gemendo, os gatos no telhado, os bichos encantados. A noite tem estrelas. Muitas. E o desenho Dele enquadrado na moldura da janela bem poderia ser um Renoir ciber eletrônico digital. Ele está nu e acordado ainda. A pele brilha em alta definição. Mas o que mais me excita, o que mais nos faz próximos, é o que ele exala. Algo natural vem da pele bruta. E Lapida meu Diamante.Não consigo resistir ao apelo do que paira no ar. É belo demais e pede para ser tocado, engolido, devorado. E não resiste. Nos meus braços se desmancha quando o pego por trás e o invado pouco a pouco, com a calma de um Lord.Ainda emoldurado pela janela posso agora me ver e sentir nós dois, juntos. Como se me transportasse pelas dimensões em um instante mágico. Meu corpo levita e a alma suspira quando lá, possuindo seu maior bem, ouço seu gemido e o corpo desaguar. Anjos devem ter passado por ali, incensando aquele instante, pleno: era o gozo puro, o vinho seco, o aroma apimentado, e um deus misterioso, lá das profundezas tudo regendo e ao mesmo tempo, consentindo.Ele dizia Amém a cada estocada, ele rezava e oferecia sua boca seguindo como numa dança o movimento combinado dos corpos suados. E dizia que me amava. E eu acreditava, embebedado por cada gota do instante que escoava. Absinto. Tudo transpirava. A temperatura era quente e aconchegante. Um vento parecia enlevar os corpos, agora sem espaço, sem limite, sem roupas, sem nada. Deixei meu corpo se entender com outro corpo, segui o conselho do maior poeta, Drummond. Deixei sim. Porque os corpos se entendem mas as almas não. Até mesmo quando tudo é apenas Sonho...
"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada."
Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.