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domingo, 8 de dezembro de 2019

Dos pés à cabeça!





Se eu acredito no amor, eu nunca acreditei muito na chamada alma gêmea, porque a minha alma gêmea tinha de ser muito diferente de mim, sabes? Porque de poesia e filosofia e literatura e outras merdas já estou cheio dos pés à cabeça. Nesse aspecto eu era um pouco à grega, alguém jovem, talvez, alguém mais inocente, alguém que tivesse a pureza do mar, a pureza e a tempestade, às vezes também.

Mário Cesarin

ps: E assim chegamos ao final de mais um ano de nossas vidas. 
Para o Bratz, um ano difícil desde o seu começo mas, que chega ao final trazendo-lhe um enorme júbilo, não só por ter sobrevivido a ele mas, tambem, por terminá-lo cheio de persptectivas boas.
Dia 14 próximo saio de férias para São Paulo, onde passarei meu aniversário, Natal e a virada do Ano de 2020. 
Novos tempos nos aguardam.

Boas Festas a todos e até o ano que vem.

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 1 de dezembro de 2019

Mas não sei o que fazer com a misericórdia!





Uma tristeza exclusiva do Verão, das despedidas ou das noites de Verão.
Durante o dia é impossível notá-la, tal como no Inverno, quando está ocupada a combater o frio.
Os meus sonhos recentes anunciam mudanças mas não sei o que fazer com a misericórdia. 
A representação da dor é aquilo que dói. Já se pode abrir a janela, um pouco, todos os dias, e escutar
as buzinas, a tarde rebentando.
Prefiro não fazer nada, que é pior. 

O Discurso Opcional Obrigatório . Mariano Peyrou

ps: Esta semana em Porto Alegre a trabalho.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 17 de novembro de 2019

Muito Cuidado!




Atenção! Não podemos carregar na dose. Atue com delicadeza e sutileza para não envenenarmos nada e não ficarmos expostos sem necessidade. Graças a Deus, até agora a sorte tem estado conosco – mas é preciso não exagerar. Tome cuidado consigo. Muito cuidado!

Witold Gombrowicz 

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

sábado, 9 de novembro de 2019

Onde é o Início? Onde é o Fim?




A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê 
no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim, 
espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés, 
não ficam, não vou 
ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar, 
há um vazio
que não é possível, 
um desejo
que não cresce 
há uma dor
que não mata 

Alma Kodiak

#BrasildeLuto

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 6 de outubro de 2019

Estrangeiro de mim mesmo!

Edward Hopper (1862-1967)


Provoca uma certa melancolia, uma tristeza decadente - seguramente literária - como certas canções de entre guerras ou páginas soltas de Drieu La Rochelle, ver um homem só, afastado e distante, no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.

Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente, em que já não é jovem e contudo ainda não é velho mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota quando com um gesto estudado acende um cigarro. Muitos copos e muitas camas, uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa, o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo, fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.

Um homem que espera sabe deus o quê e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença as garrafas à sua frente, os rostos refletidos por um espelho, tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.

E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido, ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio – que esse homem és irremediavelmente tu.

Não resta então senão um sorriso céptico e distante – aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –, e acabares a bebida de um só trago, pagares a conta enquanto chamas um táxi e dizeres-te adeus com palavras banais.

Juan Luis Panero



Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 29 de setembro de 2019

Alma Caiada!



Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.

De dia caio minh’alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

Antônio Cícero

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

sábado, 14 de setembro de 2019

O Álvaro gosta muito!




Descobri um poema do Mário Cesariny que surpreendeu-me. 

Trata-se de uma leitura homoerótica e, de algum modo, paródica da relação dos heterônimos de Fernando Pessoa, escritor que exerceu grande influência sobre os versos de Cesariny. 


O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os héteros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incômodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço de heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela ao lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era quando o Aleyster Crowley aparecia.
«Iô Pan! Iô Pã!», dizia,
E era felatio para todos
e pão de ló molhado em malvasia.


Mário Cesariny

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 8 de setembro de 2019

Uma Verdadeira Viagem!





Uma verdadeira viagem não tem a ver com os destaques com os quais você impressiona os amigos quando volta para casa. Tem a ver com solidão, o isolamento, as noites que passa sozinho desejando estar em outro lugar. 

Tahir Shah . Nas Noites Árabes

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

sábado, 31 de agosto de 2019

Mistério!





Permaneceram algum tempo apoiados na balaustrada olhando a cidade adormecida.
- Olha essa luz na janela, naquela casinha – comentou Alejandra, apontando com a mão.
- Essa luzes noturnas sempre me subjugam: será uma mulher que está para ter um filho? Ou talvez um estudante pobre lendo Marx? Que misterioso é o mundo. Só a gente superficial não o vê. Conversa com o guarda da esquina, dá-lhe intimidade, e vais descobrir que ele também é um mistério.

Ernesto Sabato - Sobre heróis e tumbas

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

sábado, 13 de julho de 2019

Há uma Vida antes da Morte!

crucifixion_of_jesus___by_morgueprincess



O amor, não os milagres, é o que constitui o essencial da mensagem de Jesus Cristo. É por isso mesmo que sua vida, tal como nos é contada, me comove e me esclarece. O recém nascido que é dado à luz num estábulo, a criança perseguida, o adolescente que dialoga com os eruditos, o mesmo, mais tarde, face a face com os mercadores do Templo, a primazia do amor, o senso do universal humano (“Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”), a abertura para o presente (Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo”), a liberdade de espírito (“a verdade vos libertá”), a parábola do bom samaritano, a do jovem rico, a do filho pródigo, o episódio da mulher adúltera, a acolhida aos banidos e às prostitutas, o sermão da montanha (“bem aventurados os mansos, bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, bem aventurados os pacificadores…), a solidão (por exemplo, no Monte das Oliveiras), a coragem, a humilhação, a crucificação …
Ficaria comovido com bem menos. Digamos que eu forjei para mim, uma espécie de Cristo interior, “manso e limpo de coração”, sim, mas puramente humano, que me acompanha ou me guia. Que ele seja tomado por Deus, é algo em que não posso acreditar. Sua vida e sua mensagem nem por isso me comovem menos. Mas a história, para mim, pára no Calvário, quando Jesus, na cruz, citando o Salmista, geme: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Aqui ele é verdadeiramente o nosso irmão, pois compartilha a nossa aflição, a nossa angústia, o nosso sofrimento, a nossa solidão, o nosso desespero.
A diferença, que não quero escamotear, é que, para os crentes, a história continua por mais três dias. Sei que esses três dias se abrem para a eternidade, pela Ressurreição, o que faz uma grande diferença, que não se trata de anular. Mas, dito isso, seria razoável dar mais importância a esses três dias, que nos separam, do que aos trinta e três anos que precedem e que, pelo menos em seu conteúdo humano, nos reúnem?
Se Jesus não houvesse ressuscitado, porventura isso daria razão aos carrascos? Isso condenaria sua mensagem de amor e de justiça? Claro que não. Assim, o essencial está salvo, e o essencial não é a salvação, mas “a verdade e a vida”.
Há uma vida depois da morte? Não podemos saber. Os cristãos acreditam que sim, pelo menos no mais das vezes. Eu não. Mas há uma vida antes da morte, e isso pelo menos nos aproxima!

André Comte-Sponville - O espírito do ateísmo

ps: Como a vida clama para ser vivida em plenitude, dia 18 próximo, depois de 6 meses e meio de luta, retomo minhas viagens e vou para São Paulo. Volto dia 30. Se cuidem enquanto isto.

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 7 de julho de 2019

Onde é o Início? Onde é o Fim?




A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê
no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim,
espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés,
não ficam, não vou
ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar,
há um vazio
que não é possível,
um desejo
que não cresce
há uma dor
que não mata

Alma Kodiak

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 7 de abril de 2019

O que ninguém deve fazer!





O mistério do nascimento é mais profundo, escreveu em algum lugar Simone Weil, e mais rico para meditar que o mistério da morte. É que ele nos confronta com o acaso, que é a verdadeira necessidade, ao passo que a morte nos entrega apenas ao destino, que é uma necessidade programada ou retrospectiva. Quer eu morra totalmente ou não, ou melhor, quer eu ressuscite ou não, minha vida nesta terra nem por isso deixará de ter sido a mesma. Mas, e se eu não tivesse nascido? Ou se tivesse nascido de pais diferentes? Ou simplesmente, com os mesmos pais, se tivesse sido recebido a partir de um outro óvulo, de um outro espermatozoide? Seria outra pessoa, ou melhor, não seria. Toda morte é inevitável (mesmo que ocorra por acaso: de qualquer modo é preciso morrer). Nenhum nascimento o é, mesmo que tenha sido desejado ou programado pelos pais. Morrer é um destino. Nascer, uma sorte.
Se nossos pais não tivessem feito amor naquele dia, ou se o tivessem feito algumas horas depois, ou antes, ou talvez simplesmente em uma outra posição, não estaríamos aqui hoje para pensar a respeito. Acasos do desejo. Loteria da vida. Nascer é para cada um a primeira grande sorte, necessariamente a mais importante, pois condiciona todas as outras. Mas isso não é tudo. A mesma improbabilidade extrema valeu também para a concepção de nosso pai e de nossa mãe, para cada um de nossos quatro avós, para cada um de nossos oito bisavós…Essas sucessivas improbabilidades, cada uma delas condicionada pelas que as precedem, multiplicam-se uma à outra. Ao fim de algumas gerações, a probabilidade de cada nascimento, embora não nula, é tão ínfima que nenhum estatístico sério aceitaria prevê-la de antemão. Ganhar na loto é, ao lado disso, brincadeira de criança.
É isso que nos deve tornar exigentes. Essa vida tão improvável que nos é dada, cabe a nós não a desperdiçar. A vida não é um destino, é uma aventura. Ninguém escolheu nascer; ninguém vive sem escolher. Cada qual é inocente de si, mas responsável por seus atos. E responsável, portanto, ao menos em parte, por aquilo que se tornou. Aristóteles mais profundo que Sartre. É forjando que alguém se torna forjador. É realizando ações virtuosas que alguém se torna virtuoso. “Fazer”, dizia Lequier, “e, fazendo, fazer-se”. Isso não fará de nós outra pessoa, o que ninguém consegue. Mas impede de nos resignarmos rápido demais ao que somos, o que ninguém deve fazer.

André Comte-Sponville - A vida humana

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 24 de março de 2019

As Nuvens!




De quem gostas mais?, diz lá, estrangeiro.
De teu pai, de tua mãe, de tua irmã ou do teu irmão?
Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
Dos teus amigos?
Eis uma palavra cujo sentido sempre ignorei.
Da tua pátria?
Não sei onde está situada.
Da beleza?
Amá-la-ia de boa vontade se a encontrasse.
Do ouro?
Odeio-o tanto quanto vós a Deus.
Então que amas tu singular estrangeiro?
Amo as nuvens… as nuvens que passam …
lá, ao longe…as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire, O Estrangeiro

Pensando …

Eu também amo a transitoriedade das coisas passageiras, sua finitude, sua fragilidade de bolha de sabão. Nada do que permanece sobrevive a erosão do tempo, tudo o que há são os pequenos momentos – como nuvens! – belos e morredouros. É uma outra forma de se relacionar com o que há de essencial em nossas vidas. Afinal, como seres tão suscetíveis ao tempo foram aspirar as coisas eternas? Por imaginação e tédio, e também um evidente temor. A única eternidade possível é a deste momento, por exemplo, em que sozinho, explico-me a mim mesmo. Há o silêncio e ele há de passar, o silêncio deste momento; há esta aflição que sinto, e ela também passará; há esta minha perplexidade só compreensível aqui, comigo, em mim. E não há nada mais simples e evidente do que este momento que já nasceu com os minutos contados. Quanto tempo terá, enfim? Por quanto tempo poderei segurá-lo, prendê-lo, antes que se dilua em esquecimento e passado? A vida talvez não passe desta imagem figurativa da bolha de sabão feita com o sopro de uma divindade aborrecida consigo mesma. E por sermos fruto da imperfeição de uma criatura original, somos todos tão insatisfeitos e imperfeitos, apesar de nossa beleza evidente e cristalina. Eis o fim deste instante.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A vida em stand by!




É foda quando, de uma hora para outra, você percebe o quanto sua vida está uma merda. Isso mesmo, você desatento na zona de conforto e de repente ...
... de repente aparece uma pessoa.
E você inconscientemente torce para ele entrar no chat do facebook, quer rir junto, marca para fumar um cigarro, diz não saber o motivo - mas que ele te faz bem, só dorme depois de dar “boa noite”, e acorda com o primeiro pensamento nele. Assim, como num estalar de dedos, esta pessoa entra na sua rotina e aquele outro amor (o que não frutifica, mas te acompanha. Enfim...) ele começa a esmaecer.
Eis o tapa na cara, dado pela vaidosa e às vezes ruidosa e apressada vida, e então o click: “Que merda eu estou fazendo da minha vida ou melhor, não fazendo?”
A percepção evidente de que a vida estava passando sem ao menos você perceber os movimentos mais básicos, vivendo em stand by.
O que fazer? Não dá para correr de si mesmo. A dicotomia entre o novo brilho nos olhos que ele te traz ou a luz habitual que o outro ainda fornece é a grande questão que a vida jogou no seu colo a fim de que você, e só você resolva.
Aos poucos o novo cara toma conta dos espaços, e você percebe que a sua vida pode não ser aquela que você merece, mas está melhor. E o outro amor, aquele morno, esfria e rodopia pelo ralo da pia. A rotina silenciosa e os desencantos ainda estão aqui, mas agora há motivos para ao menos questionar esta vida mal vivida e sufocada pela mesmice e falta de horizonte – horizonte este que ele insiste em apontar e lá está.


Giuliano Nascimento

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje .
..

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Quarteto da Orgia!



Início de madrugada, de uma quinta-feira qualquer, telefonemas breves, passagem rápida para encontrar um dos amigos e saímos com o objetivo de beber uma cerveja – uma só – somos quatro, todos com mais de “trinta”: Um no início, outro no meio, e um representante do finzinho dos 30; o mais experiente contabiliza 41 anos (há pelo menos 04 anos o conheço e sempre a mesma idade, enfim...). Rasgamos a rua, caminhando lado a lado com passos sincronizados bem no meio da via, rindo alto e comentando o noticiário particular em comum.
Vindo na direção contrária um homem, que ostenta o epíteto “Chacal”. Ele olha o grupo, sorri maliciosamente, balança seu corpo e afirma com uma voz deliciosamente lasciva: Vocês hein, o Quarteto da Orgia.
Confesso que ao ouvir a designação me senti como uma prostituta barata, de bota cano longo, minissaia e cigarro na boca coberta de batom vermelho.
Estou seguro de que nunca integrarei uma orgia, sou careta e até um tanto “conservador” – mas o curioso é a percepção do Chacal à lascívia do grupo, que é verbalmente sexual.
Chegando ao “Zueira” (boteco que fica aberto a madrugada toda, todos os dias da semana), o que era a percepção de um notívago se materializa fisicamente.
Ao cumprimentar um amigo, este me abraça forte e me suspende pelas pernas até a altura de sua cintura, de forma violenta e ao mesmo tempo casual.
Os próximos minutos, enquanto a cerveja não acabava, foram sucessões de pequenas perversões:
Expulsão de uma bêbada (mal vista por alguns do grupo), o rapaz preferiu ficar com o Quarteto da Orgia, e falava isso em tom debochado para a rejeitada e inconformada mulher.
Vídeo pornô caseiro exibido para todos. Simulações de brigas por ciúmes, um pênis fora das calças em frente à mesa e todos, e a garrafa de cerveja ainda com conteúdo gelado.
Comentários maliciosos diversos, mordida no queixo, tapas nas coxas, brincadeiras de duplo sentido e olhares, olhares diretos nos olhos, sorrisos tímidos e as vozes dos homens a cada momento mais presentes e embaralhadas, graves e estridentes.
Na primeira sugestão em ir embora me levanto da cadeira e me despeço de longe – com o clássico tchauzinho de miss. Na segurança da minha casa, respirei aliviado pela não realização da profética frase dionisíaca. Perdoem-me as bacantes, mas de dissoluto só tenho a imagem.

Giuliano Nascimento

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

O que isso significa?




– Por que não faz nada?
– Como assim?
– Sei lá.
– O que quer dizer?
– Não tem nada que queira fazer?
– Nada? Tipo o quê?
– Não sei. Você é bom em tantas coisas, poderia fazer o que quisesse. É bom em tudo que faz, não prefere fazer outra coisa? 
– Do que o quê? Ser marido? O pai da Frankie? O que quer que eu faça? Nos seus sonhos o que eu faço? 
– Não sei. Você é tão bom em tantas coisas. Consegue fazer tantas coisas. Tem tanta capacidade. 
– Para fazer o quê? 
– Pode cantar, desenhar…dançar. 
– Ouça, eu não queria ser o marido de ninguém. E nem queria ser pai. Não era meu objetivo. Deve ser de algum cara. Não era o meu. Mas de algum jeito era o que eu queria. Eu não sabia disso e só isso que quero. Não quero fazer mais nada. É o que eu quero. Eu trabalho para fazer isso. 
– Queria que trabalhasse em algo que não precisasse beber às 8h. 
– Tenho um trabalho que posso beber às 8h. É um luxo. Vou para o trabalho, bebo, pinto a casa de alguém. Eles ficam felizes, eu vou para casa, posso ficar com você. É um sonho. 
– Você nunca fica desapontado? 
– Por quê? Por que me desapontaria? Faço o que quero. 
– Tem potencial. 
– E daí? Por que tem que tirar dinheiro do seu potencial? 
– Não estou dizendo isso. 
– O que é potencial? O que é potencial? O que isso significa? Potencial de quê? Para virar o quê? 

Do filme Blue Valentine 

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Se nega a dizer não!



Há uma solidão neste mundo tão grande
que você pode ver em câmera lenta,
nas mãos de um relógio
Pessoas tão cansadas, mutiladas por amor,
ou pelo não amor.
As pessoas não são boas com as outras 
Os ricos não são bons com outros ricos 
E os pobres não são bons com outros pobres 
Nós estamos com medo. 
Nosso sistema educacional nos mostra que todos 
nós podemos ser malditos vencedores. 
Não nos foi dito sobre os 
marginais ou os suicidas 
Ou o terror de uma pessoa 
que agoniza sozinha. 
Mais odiadores que amantes 
As pessoas não são boas umas com as outras 
Talvez se elas fossem, nossas 
mortes não seriam tão tristes 
Deve haver um jeito que 
nós ainda não pensamos 
Quem colocou esse cérebro em mim? 
Ele chora, exige 
Diz que há chance 
Se nega a dizer não 

Charles Bukowski

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A vida, segundo Mario Benedetti!


O tempo passa. Às vezes penso que teria que andar de pressa, aproveitar o máximo possível estes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de escrutinar minhas rugas: “Ora, mas você ainda é um homem jovem”. Ainda. Quantos anos me restam desse “ainda”? Penso nisso e me aflijo, tenho a angustiante sensação de que a vida está me escapando, como se minhas veias tivessem se aberto e eu não pudesse estancar o sangue. Porque a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, que “nos apegamos à vida”, estamos fazendo com que seja assimilada por outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos fazendo que seja assimilada pelo Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou certo de que isso é a vida. Daí vem a aflição (…). Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde aceitável, de ocupações rotineiras, de expectativa diante da sorte, mas quantos me restam de prazer? (…) “Ainda” quer dizer: está no fim.
E este é o lado absurdo de nosso acordo: dissemos que levaríamos tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reveríamos a situação. Mas o tempo corre, deixemos ou não (…) A experiência é boa quando vem junto com o vigor; depois, quando o vigor se vai, resta apenas uma peça de museu, decorativa, cujo único valor reside em ser uma recordação daquilo que já se foi. A experiência e o vigor são simultâneos por muito pouco tempo. Estou agora nesse pouco tempo. Não se trata, porém, de uma sorte invejável.

Mario Benedetti, no livro “A Trégua“ 

ps: De volta para um novo ano. Um ano que começa tenso, mas com garra, luta e confiança superarei bem. Nova batalha de uma guerra de 8 anos. 
Muitas felicidades aos amigos durante este 2019. 

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ... 

domingo, 9 de dezembro de 2018

Uma Noite Povoada!



“Aceito mal o que em arte se designa por inovador. Deverá uma obra ser entendida pelas gerações futuras? Porquê? Que quererá isto dizer? Que elas poderão utilizá-la? Em quê? Não vejo bem. Já vejo melhor – ainda que muito obscuramente – toda a obra de arte que pretenda atingir os mais altos desígnios deve, com paciência e uma infinita aplicação desde início, recuar milênios e juntar-se, se possível, à imemorial noite povoada pelos mortos que irão reconhecer-se nessa obra. Nunca, nunca, a obra de arte se destina às novas gerações. Ela é oferenda ao inúmero povo dos mortos.” 

Jean Genet . O Estúdio de Alberto Giacometti 

ps: E minhas férias estão aí. Dia 15 próximo indo para São Paulo. Volto em Janeiro.
A todos os amigos um Feliz Natal.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 2 de dezembro de 2018

Sua melhor arte!




Há suficiente traição, ódio, violência,
Absurdos no ser humano mediano
Para abastecer qualquer
exército em qualquer dia
E os melhores em matar
são aqueles que pregam contra
E os melhores em odiar
são aqueles que pregam o amor
E os melhores na guerra – finalmente –
são aqueles que pregam a paz
Cuidado com o homem mediano, a
mulher mediana, cuidado com o amor deles
Esse amor é mediano, procuram o mediano,
mas há genialidade em seu ódio
Há suficiente genialidade em seu
ódio para matá-lo, para matar qualquer um.
Não querendo a solidão
Não entendendo a solidão
Tentarão destruir qualquer coisa
que seja diferente de si mesmos
Não sendo capazes de criar arte,
eles não entenderão a arte
Considerarão as próprias falhas, como criadores,
Apenas como uma falha do mundo
Não sendo capazes de amar plenamente,
acreditarão
que seu amor é incompleto e então te odiarão
E seu ódio será perfeito como um brilhante diamante,
como uma faca, como uma montanha, como um tigre, como cicuta.
Sua melhor arte

Charles Bukowski

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

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