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domingo, 8 de dezembro de 2019

Dos pés à cabeça!





Se eu acredito no amor, eu nunca acreditei muito na chamada alma gêmea, porque a minha alma gêmea tinha de ser muito diferente de mim, sabes? Porque de poesia e filosofia e literatura e outras merdas já estou cheio dos pés à cabeça. Nesse aspecto eu era um pouco à grega, alguém jovem, talvez, alguém mais inocente, alguém que tivesse a pureza do mar, a pureza e a tempestade, às vezes também.

Mário Cesarin

ps: E assim chegamos ao final de mais um ano de nossas vidas. 
Para o Bratz, um ano difícil desde o seu começo mas, que chega ao final trazendo-lhe um enorme júbilo, não só por ter sobrevivido a ele mas, tambem, por terminá-lo cheio de persptectivas boas.
Dia 14 próximo saio de férias para São Paulo, onde passarei meu aniversário, Natal e a virada do Ano de 2020. 
Novos tempos nos aguardam.

Boas Festas a todos e até o ano que vem.

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 1 de dezembro de 2019

Mas não sei o que fazer com a misericórdia!





Uma tristeza exclusiva do Verão, das despedidas ou das noites de Verão.
Durante o dia é impossível notá-la, tal como no Inverno, quando está ocupada a combater o frio.
Os meus sonhos recentes anunciam mudanças mas não sei o que fazer com a misericórdia. 
A representação da dor é aquilo que dói. Já se pode abrir a janela, um pouco, todos os dias, e escutar
as buzinas, a tarde rebentando.
Prefiro não fazer nada, que é pior. 

O Discurso Opcional Obrigatório . Mariano Peyrou

ps: Esta semana em Porto Alegre a trabalho.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 17 de novembro de 2019

Muito Cuidado!




Atenção! Não podemos carregar na dose. Atue com delicadeza e sutileza para não envenenarmos nada e não ficarmos expostos sem necessidade. Graças a Deus, até agora a sorte tem estado conosco – mas é preciso não exagerar. Tome cuidado consigo. Muito cuidado!

Witold Gombrowicz 

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

sábado, 9 de novembro de 2019

Onde é o Início? Onde é o Fim?




A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê 
no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim, 
espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés, 
não ficam, não vou 
ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar, 
há um vazio
que não é possível, 
um desejo
que não cresce 
há uma dor
que não mata 

Alma Kodiak

#BrasildeLuto

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 27 de outubro de 2019

Antônio Francisco Lisboa. O Aleijadinho!



A arte sacra do Barroco Mineiro em sua expressão máxima.
O Aleijadinho . Antônio Francisco Lisboa.

 
ps: De  volta da viagem a Maceió. Super produtiva e prazerosa.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 20 de outubro de 2019

Em tempos do Politicamente Correto e outras Ideologias!



Estou por aqui em BlogsVille ja faz tempo, desde julho de 2007.
Por mais que eu tenha tentado me mostrar aos amigos, muitas facetas não ficam tão transparentes.
Outro dia, navegando pelo Facebook, deparei com uma postagem que achei sensacional.
Ela traduz, em detalhes, uma característica pessoal que muitos podem nem imaginar. Sou um cara inteirafmente avesso ao tal do Politicamente Correto e outras ideologias em voga.
Deixo aqui para vocês este vídeo de Luiz Carlos Prates, um polêmico articulista que transitou e transita por diversas redes de TV aqui no Brasil.
Penso que muitos de vocês vão se identificar com o que ele retrata, uns por um lado e outros pelo outro lado ... rs.

.

Segunda-Feira indo para Maceió participar do V CONAFFA, Volto Sábado.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 6 de outubro de 2019

Estrangeiro de mim mesmo!

Edward Hopper (1862-1967)


Provoca uma certa melancolia, uma tristeza decadente - seguramente literária - como certas canções de entre guerras ou páginas soltas de Drieu La Rochelle, ver um homem só, afastado e distante, no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.

Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente, em que já não é jovem e contudo ainda não é velho mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota quando com um gesto estudado acende um cigarro. Muitos copos e muitas camas, uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa, o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo, fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.

Um homem que espera sabe deus o quê e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença as garrafas à sua frente, os rostos refletidos por um espelho, tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.

E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido, ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio – que esse homem és irremediavelmente tu.

Não resta então senão um sorriso céptico e distante – aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –, e acabares a bebida de um só trago, pagares a conta enquanto chamas um táxi e dizeres-te adeus com palavras banais.

Juan Luis Panero



Bratz Elian
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sábado, 14 de setembro de 2019

O Álvaro gosta muito!




Descobri um poema do Mário Cesariny que surpreendeu-me. 

Trata-se de uma leitura homoerótica e, de algum modo, paródica da relação dos heterônimos de Fernando Pessoa, escritor que exerceu grande influência sobre os versos de Cesariny. 


O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os héteros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incômodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço de heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela ao lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era quando o Aleyster Crowley aparecia.
«Iô Pan! Iô Pã!», dizia,
E era felatio para todos
e pão de ló molhado em malvasia.


Mário Cesariny

Bratz Elian
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domingo, 8 de setembro de 2019

Uma Verdadeira Viagem!





Uma verdadeira viagem não tem a ver com os destaques com os quais você impressiona os amigos quando volta para casa. Tem a ver com solidão, o isolamento, as noites que passa sozinho desejando estar em outro lugar. 

Tahir Shah . Nas Noites Árabes

Bratz Elian
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sábado, 31 de agosto de 2019

Mistério!





Permaneceram algum tempo apoiados na balaustrada olhando a cidade adormecida.
- Olha essa luz na janela, naquela casinha – comentou Alejandra, apontando com a mão.
- Essa luzes noturnas sempre me subjugam: será uma mulher que está para ter um filho? Ou talvez um estudante pobre lendo Marx? Que misterioso é o mundo. Só a gente superficial não o vê. Conversa com o guarda da esquina, dá-lhe intimidade, e vais descobrir que ele também é um mistério.

Ernesto Sabato - Sobre heróis e tumbas

Bratz Elian
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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Acho!





- Não há nada de errado com sua vida. Apenas sente pena de si mesma. Um de seus grandes prazeres.
- E não é um dos seus? Você é tão patético quanto eu. Não sinto prazer em ter pena de mim!
- Nem eu! Não gosto nem um pouco.
- Você tem todas as respostas.
- Não, eu não tenho nenhuma.
- Já que é esperto, por que não dá uma reviravolta em sua vida? Por que não aceita o cargo em Stanford? Por que ficar numa pequena escola se pode ter o cargo que quiser?
- Acho que o que fiz valeu a pena.

Do filme A Single Man


Bratz Elian
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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Dia de Nossa Senhora da Boa Viagem!





Tradição da cidade de Belo Horizonte, a festa da Padroeira Nossa Senhora da Boa Viagem. Antigamente era dia da apreesntação dos grupos de congado. Era lindo. 
Hoje, erram grosseiramente no convite oficial da Arqueidiocese. Hoje é quinta-feira e não quarta.



Mas vamos ao que interessa: 

A Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem passa por processo de restauração geral, sendo que, o Pesbitério e a Imagem já conclúidos foram entregues à população da cidade de BH no último domingo dia 11 de Agosto. A foto mostra a beleza do resultado final da obra e, o vídeo, todo o processo. 
Incrívelmente belo.




Clique no link abaixo para ver o vídeo ...

Bratz Elian
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sábado, 13 de julho de 2019

Há uma Vida antes da Morte!

crucifixion_of_jesus___by_morgueprincess



O amor, não os milagres, é o que constitui o essencial da mensagem de Jesus Cristo. É por isso mesmo que sua vida, tal como nos é contada, me comove e me esclarece. O recém nascido que é dado à luz num estábulo, a criança perseguida, o adolescente que dialoga com os eruditos, o mesmo, mais tarde, face a face com os mercadores do Templo, a primazia do amor, o senso do universal humano (“Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”), a abertura para o presente (Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo”), a liberdade de espírito (“a verdade vos libertá”), a parábola do bom samaritano, a do jovem rico, a do filho pródigo, o episódio da mulher adúltera, a acolhida aos banidos e às prostitutas, o sermão da montanha (“bem aventurados os mansos, bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, bem aventurados os pacificadores…), a solidão (por exemplo, no Monte das Oliveiras), a coragem, a humilhação, a crucificação …
Ficaria comovido com bem menos. Digamos que eu forjei para mim, uma espécie de Cristo interior, “manso e limpo de coração”, sim, mas puramente humano, que me acompanha ou me guia. Que ele seja tomado por Deus, é algo em que não posso acreditar. Sua vida e sua mensagem nem por isso me comovem menos. Mas a história, para mim, pára no Calvário, quando Jesus, na cruz, citando o Salmista, geme: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Aqui ele é verdadeiramente o nosso irmão, pois compartilha a nossa aflição, a nossa angústia, o nosso sofrimento, a nossa solidão, o nosso desespero.
A diferença, que não quero escamotear, é que, para os crentes, a história continua por mais três dias. Sei que esses três dias se abrem para a eternidade, pela Ressurreição, o que faz uma grande diferença, que não se trata de anular. Mas, dito isso, seria razoável dar mais importância a esses três dias, que nos separam, do que aos trinta e três anos que precedem e que, pelo menos em seu conteúdo humano, nos reúnem?
Se Jesus não houvesse ressuscitado, porventura isso daria razão aos carrascos? Isso condenaria sua mensagem de amor e de justiça? Claro que não. Assim, o essencial está salvo, e o essencial não é a salvação, mas “a verdade e a vida”.
Há uma vida depois da morte? Não podemos saber. Os cristãos acreditam que sim, pelo menos no mais das vezes. Eu não. Mas há uma vida antes da morte, e isso pelo menos nos aproxima!

André Comte-Sponville - O espírito do ateísmo

ps: Como a vida clama para ser vivida em plenitude, dia 18 próximo, depois de 6 meses e meio de luta, retomo minhas viagens e vou para São Paulo. Volto dia 30. Se cuidem enquanto isto.

Bratz Elian 
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 7 de julho de 2019

Onde é o Início? Onde é o Fim?




A manhã está fria e cinzenta de tão vazia,
ninguém me vê
no mar tão macio, tão pequeno ao meu redor e
tão cheio de mim,
espero as horas que chegam, e partem, e voltam
parecem-me mulheres perdidas, desamadas, loucas,
cheias de silêncio levando as marés,
não ficam, não vou
ninguém é meu, ou minha,
não há histórias, não há memórias, não há cheiros,
não há canções, não há paredes manchadas, nem roupas estragadas,
não há flores no jardim, não há passos junto à porta,
não houve início, não há fim,
não há cama para fazer, nem mesa,
nem janela para abrir, nem livro pra fechar,
há um vazio
que não é possível,
um desejo
que não cresce
há uma dor
que não mata

Alma Kodiak

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 28 de abril de 2019

Ouro Preto! Seu Casario e sua Religiosidade. Semana Santa 2019!



Estive estes dias do Tríduo Pascal em Ouro Preto, antiga Capital das Minas Gerais, que data dos tempos do Brasil Colônia.
Cidade Patrimônio Histórico da Humanidade, se apresenta com todo o seu requinte cultural que abrange a arquitetura, a pintura, a música, a religiosidade e, o mais importante, o seu contexto histórico no processo de Independência do Brasil.
Aproveitei para registrar imagens que mostram, um pouco, toda esta grandiosidade.


Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ... 

domingo, 21 de abril de 2019

Setenário das Dores e Ramos!





A Semana Santa em Belo Horizonte teve seu início de forma magnífica, reeditando toda a sua religiosidade tradicional.

 

Bratz Elian
enfim, é o que tem pra hoje ...

domingo, 14 de abril de 2019

Semana Santa e o Barroco Mineiro!



O Barroco, foi uma das formas de expressão artística mais visíveis entre o século XVII e a primeira metade do século XVIII, no Brasil.
O enriquecimento provocado pela mineração e a forte religiosidade dos povos das minas, favoreceram o desenvolvimento das artes em Minas Gerais.
O barroco desenvolveu-se no Brasil ao lado dos primeiros núcleos urbanos. As principais manifestações dessa arte foram as construções religiosas levantadas nas cidades mineiras do Ciclo do Ouro, como Ouro Preto e Mariana.
A riqueza resultante da exploração do ouro na região de Minas Gerais estimulou, em Ouro Preto, o surgimento do maior conjunto de arquitetura barroca do mundo e justificou o tombamento da cidade como patrimônio nacional, em 1933, e em patrimônio mundial, em 1980.
Apesar da influência inicial do Barroco europeu, a arte barroca no Brasil assumiu características próprias.
A arte barroca evoca a religião em cada detalhe: altares, geralmente em madeira, expõe ricos ornamentos espirais ou florais e é todo entalhado com figuras de anjos e imagens revestidas de uma fina película de ouro. Santos em relevo se espalham pelas capelas da nave central, e o teto, representando geralmente um céu em perspectiva, que aumenta a sensação de profundidade no ambiente.
A vida cultural nas Minas Gerais desenvolveu-se principalmente em torno das Igrejas e confrarias. Por essa razão, a arquitetura, a escultura sacra e a música se desenvolveram na região e deixaram importantes registros do barroco brasileiro.
Na arquitetura, temos importantes construções no estilo barroco, como a Igreja do Carmo, em São João Del Rei e a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto.
Na escultura, as obras eram feitas geralmente em madeira ou pedra-sabão, estavam ligadas à religiosidade. Destaque para Aleijadinho, um dos principais representantes do barroco brasileiro. Escultor e arquiteto, Antônio Francisco Lisboa, chamado de Aleijadinho.
Na pintura, destacou-se Manuel da Costa Ataíde. Ataíde criou seu próprio estilo, utilizando-se de cores vivas, tropicais. Pintou em suas obras figuras cordiais, mas um tanto irreverentes. Sua obra de maior destaque está no teto da nave da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Obra realizada entre 1800 e 1809.
Na música barroca destaque para José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita e Manoel Dias de Oliveira

Próxima semana, estarei em Ouro Preto durante o tríduo pascal, para reviver e desfrutar de toda esta riqueza artística ao vivo.

Bratz Elian
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domingo, 7 de abril de 2019

O que ninguém deve fazer!





O mistério do nascimento é mais profundo, escreveu em algum lugar Simone Weil, e mais rico para meditar que o mistério da morte. É que ele nos confronta com o acaso, que é a verdadeira necessidade, ao passo que a morte nos entrega apenas ao destino, que é uma necessidade programada ou retrospectiva. Quer eu morra totalmente ou não, ou melhor, quer eu ressuscite ou não, minha vida nesta terra nem por isso deixará de ter sido a mesma. Mas, e se eu não tivesse nascido? Ou se tivesse nascido de pais diferentes? Ou simplesmente, com os mesmos pais, se tivesse sido recebido a partir de um outro óvulo, de um outro espermatozoide? Seria outra pessoa, ou melhor, não seria. Toda morte é inevitável (mesmo que ocorra por acaso: de qualquer modo é preciso morrer). Nenhum nascimento o é, mesmo que tenha sido desejado ou programado pelos pais. Morrer é um destino. Nascer, uma sorte.
Se nossos pais não tivessem feito amor naquele dia, ou se o tivessem feito algumas horas depois, ou antes, ou talvez simplesmente em uma outra posição, não estaríamos aqui hoje para pensar a respeito. Acasos do desejo. Loteria da vida. Nascer é para cada um a primeira grande sorte, necessariamente a mais importante, pois condiciona todas as outras. Mas isso não é tudo. A mesma improbabilidade extrema valeu também para a concepção de nosso pai e de nossa mãe, para cada um de nossos quatro avós, para cada um de nossos oito bisavós…Essas sucessivas improbabilidades, cada uma delas condicionada pelas que as precedem, multiplicam-se uma à outra. Ao fim de algumas gerações, a probabilidade de cada nascimento, embora não nula, é tão ínfima que nenhum estatístico sério aceitaria prevê-la de antemão. Ganhar na loto é, ao lado disso, brincadeira de criança.
É isso que nos deve tornar exigentes. Essa vida tão improvável que nos é dada, cabe a nós não a desperdiçar. A vida não é um destino, é uma aventura. Ninguém escolheu nascer; ninguém vive sem escolher. Cada qual é inocente de si, mas responsável por seus atos. E responsável, portanto, ao menos em parte, por aquilo que se tornou. Aristóteles mais profundo que Sartre. É forjando que alguém se torna forjador. É realizando ações virtuosas que alguém se torna virtuoso. “Fazer”, dizia Lequier, “e, fazendo, fazer-se”. Isso não fará de nós outra pessoa, o que ninguém consegue. Mas impede de nos resignarmos rápido demais ao que somos, o que ninguém deve fazer.

André Comte-Sponville - A vida humana

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

domingo, 24 de março de 2019

As Nuvens!




De quem gostas mais?, diz lá, estrangeiro.
De teu pai, de tua mãe, de tua irmã ou do teu irmão?
Não tenho pai, nem mãe, nem irmãos.
Dos teus amigos?
Eis uma palavra cujo sentido sempre ignorei.
Da tua pátria?
Não sei onde está situada.
Da beleza?
Amá-la-ia de boa vontade se a encontrasse.
Do ouro?
Odeio-o tanto quanto vós a Deus.
Então que amas tu singular estrangeiro?
Amo as nuvens… as nuvens que passam …
lá, ao longe…as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire, O Estrangeiro

Pensando …

Eu também amo a transitoriedade das coisas passageiras, sua finitude, sua fragilidade de bolha de sabão. Nada do que permanece sobrevive a erosão do tempo, tudo o que há são os pequenos momentos – como nuvens! – belos e morredouros. É uma outra forma de se relacionar com o que há de essencial em nossas vidas. Afinal, como seres tão suscetíveis ao tempo foram aspirar as coisas eternas? Por imaginação e tédio, e também um evidente temor. A única eternidade possível é a deste momento, por exemplo, em que sozinho, explico-me a mim mesmo. Há o silêncio e ele há de passar, o silêncio deste momento; há esta aflição que sinto, e ela também passará; há esta minha perplexidade só compreensível aqui, comigo, em mim. E não há nada mais simples e evidente do que este momento que já nasceu com os minutos contados. Quanto tempo terá, enfim? Por quanto tempo poderei segurá-lo, prendê-lo, antes que se dilua em esquecimento e passado? A vida talvez não passe desta imagem figurativa da bolha de sabão feita com o sopro de uma divindade aborrecida consigo mesma. E por sermos fruto da imperfeição de uma criatura original, somos todos tão insatisfeitos e imperfeitos, apesar de nossa beleza evidente e cristalina. Eis o fim deste instante.

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje ...

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