quinta-feira, 12 de abril de 2012

Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. 

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. 
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. 
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. 
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. 
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. 
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma. 


Marina Colasanti . Eu sei, mas não devia

Bratz Elian
enfim! é o que tem pra hoje...

20 comentários:

  1. Ela tem textos espetaculares. E fazemos tudo isso sabendo que não devíamos, enquanto ela escreve sabendo o que deve escrever e nós, não. Beijos Bratz Elian...rsrsr

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  2. acho q o Raphael não percebeu a assinatura né?

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  3. Eu sei, todo mundo sabe... talvez seja essa a mudança que esteja se operando na espécie humana. Saber que se caminha para um padrão de comportamento cada vez mais nocivo e... estar se acostumando!

    Beijos, meu lindo!

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  4. Por isso que sempre devemos corer atrás do novo e inesperado. A vida é tão chata já do jeito que é, né?
    bjão!

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  5. O pior é se acostumar em não fazer porque isto sim é terrível. E como disse bem o Wans, devemos correr atrás do novo, do inesperado!

    Beijos

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  6. Não devemos trilhar a vida de acordo com o esperado, pois em meio a ela existe o inesperado. E os comentários já dizem tudo.
    Obrigado amigo por sempre lembrar de nós.
    Abraço

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  7. É... E quando a gente perde o costume somos taxados de mil etiquetas... rss

    Amigo Bratz, não tá aparecendo tuas postagens em meu blog... Tentarei resolver e ao menos tentar retribuir todo o carinho que tu deixa por lá... tank´s meu véi...

    Abraços
    Tatto

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  8. Há muito tempo conheço esse texto.
    É realmente lindo, transcrevi umas partes em uma agenda antiga, até.
    Nunca o esqueci. É lindo.

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  9. Acostumamos tanto que até sentimos falta.

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  10. Uma MERDA se acostumar né? Mais as Vezes uma ou putra coisa lutamos e não deixamos "nos acostumar"...

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  11. Oi ... Já me acostumei a tanta coisa que hoje, infelizmente em algumas situações, não consigo me livrar delas. Mas estou tentando ...

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  12. Querido amigo, já passamos a nos acostumar com as coisas que sabemos ser erradas. Afinal vivemos no país do "jeitinho". Tenha um lindo final de semana. Beijocas

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  13. A gente se acostuma com tanta coisa, meu querido... Até com o silêncio dos próprios poemas.
    Abração

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  14. Gostei muito desse texto! Me lembrou essa música:

    http://www.youtube.com/watch?v=jGnQ4afCamE

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    1. Ah, e faltou o beijo de despedida! rs. Beijo!

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  15. PQP! QUE TEXTO!

    Recorro ao velho ditado: "É o costume que mata..."

    Abraço.

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então! obrigado pela visita e apareça mais, sempre teremos emoções para partilhar.

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