segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Escatologia


Depois dos últimos sinais, fiquei com a impressão de que minha maior ignorância, a mais grave distração, meu esquecimento mais freqüente é de mim.Ignoro-me, esqueço-me e sigo em frente desprezando quanto custo. Quanto sou o que acabei me tornando. Minha dispersão é o coeficiente de quanto custa ser assim. Sou perspicaz em descrever as pessoas a minha volta. Qualquer movimento alheio faz soar meus juízos e afetações. O que todos dizem ou ouvem de mim imprime uma memória quase infalível. Mas me dei conta de que tudo o que sei sobre mim sei de longe. Sei acanhado. Os sinais que recebi poderiam ser mais discretos, mas sutileza apenas convence a face ignorante de minha dor. São ruidosos. Expuseram-me. Estamparam minha impotência. Sinais escatológicos devem ser indiscretos. Dão-me bom dia as lágrimas. Um choro engasgado de tão profundo e distante. De lá de onde um dia espero ser resgatado. Choro sem decisão, aos poucos. Espero pelas dez, ou onze. Sempre passa, silencia e me adia. Minha angústia disfarçada pelos cantos é ávida devoradora das minhas manhãs. Quando, enfim, a mínima tarefa reinicia, reencena, reticências. Em um dia desses, sem mais sinais, tão temida, a epifania de mim.

Paulo Braccini
enfim! é o que tem pra hoje...

13 comentários:

  1. é, meu apocalipse tá bem perto...

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  2. muito bom, apesar da depressão total
    bjos boa semana

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  3. Pohãn!! Que texto forte e bonito, hein??

    Grande abraço pra vc!!

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  4. Obrigado pela dica! Vou seguir o cara!
    Enfia o dedo na ferida sem dó e com beleza!
    Gosto disso!
    Bjs ao Muso

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  5. É mesmo muito difícil encarar-se.

    Beijos, Paulo

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  6. Ah,mas não devemos deixar aos outros a tarefa de mostrar quem somos.Corremos o risco de nos vermos transformados num inusitado mosaico e pior,tentar corresponder às expectativas de pessoas que nem sempre nos enxergam com os olhos do coração,mas não devemos dispensar encarar a imagem da verdade.mas desde que seja a do nosso próprio espelho...

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  7. difícil fazer um comentário sobre esse texto. Li duas vezes e em ambas não consegui pensar nada...uma argumentação muito contundente e forte...

    abração...

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  8. Olá Paulo, estava com saudades das suas interrogações e exclamações, pois esse é o espaço devido para uma boa lida em prosa e versos do cotidiano mundo dos seres humanos.
    Após uma boa parada por conta do mau estado do meu computador estamos de volta, e, com força total.
    Abraço

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  9. Intenso. Forte. Filosófico.

    Obrigado.

    Forte abraço.

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  10. É aquela velha história de se olhar no espelho apontar o dedo pra si mesmo e ver se conseguimos nos auto encarar sem máscaras e fugas...

    Abraço!

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então! obrigado pela visita e apareça mais, sempre teremos emoções para partilhar.

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